Haja o que houver, há de chegar a chuva, branca, telúrica sobre minha nudez estendida ao chão e exposta ao céu rachado em tiras de fogo. Tenho o ouvido colado à terra, onde ouço Madredeus e os resquícios das vibrações do big bang. Mergulho no beijo inspirado em vodkas e mentiras infernais colhidas nas promessas do acaso. Acordo o desejo encostado em sombras, o desejo que pulsa na boca, antes da queda vertiginosa, irreversível, imprescindível, das alturas geológicas do tempo e dos abismos do corpo. Componho recados inócuos, bilhetes em hieroglifos, teorias do esquecimento que são lidas em meus olhos por olhos gris. Não volto para a ceia, não preciso da porta aberta, não acendo a luz da espera. Antevejo a doçura da chuva. Nasceram-me asas voltadas para o caminho do tempo crepuscular, onde o meu amor não tem mais dono. Talvez eu voe, talvez morra, talvez pouse no telhado junto aos gatos, até que a chuva, translúcida e também alada, me conceda uma contradança.
Mora no meu coração
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Poeta e professora aposentada Maria Helena Amoras Atualmente morando em
Belém, ela veio passar uns dias em Macapá. E tanta gente ficou feliz ao
reencontrá-...





