sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Contradança II

Haja o que houver, há de chegar a chuva, branca, telúrica sobre minha nudez estendida ao chão e exposta ao céu rachado em tiras de fogo. Tenho o ouvido colado à terra, onde ouço Madredeus e os resquícios das vibrações do big bang. Mergulho no beijo inspirado em vodkas e mentiras infernais colhidas nas promessas do acaso. Acordo o desejo encostado em sombras, o desejo que pulsa na boca, antes da queda vertiginosa, irreversível, imprescindível, das alturas geológicas do tempo e dos abismos do corpo. Componho recados inócuos, bilhetes em hieroglifos, teorias do esquecimento que são lidas em meus olhos por olhos gris. Não volto para a ceia, não preciso da porta aberta, não acendo a luz da espera. Antevejo a doçura da chuva. Nasceram-me asas voltadas para o caminho do tempo crepuscular, onde o meu amor não tem mais dono. Talvez eu voe, talvez morra, talvez pouse no telhado junto aos gatos, até que a chuva, translúcida e também alada, me conceda uma contradança.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

O nome das coisas

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A gente já sabia que as coisas têm nome, mas nunca tinha prestado atenção a quantas coisas as coisas têm, além do nome. Arnaldo Antunes então disse: As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, destino, idade, sentido. As coisas não têm paz. E a gente passou a ver certas coisas com outros olhos, outros narizes e outras bocas.
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Vejam só quantas coisas tem a coisa janela, por exemplo. Tem tamanho, tem cor, tem lirismo e poesia. Nem posso imaginar outro nome para janela, ou outro nome para poesia. Aurora, então, é uma coisa que têm luz até no mome. Saudade, além de uma recôndita tristeza, tem reticências, tem extensão: que coisa comprida é a saudade...
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Sim, temos uma língua que batizou bem as coisas, embora haja coisas que ainda carecem de nome. Como se chama, por exemplo, aquela sensação que se tem na boca do estômago ao se lembrar de repente de algo que causou extrema emoção? Qual é o nome daquela valetinha situada logo abaixo da nuca de algumas pessoas – não de todas – que tem um cheiro intenso de feromônio? Como devo chamar a atitude de quem acha que pode arrancar folhinhas, colher uma florzinha daquela planta que nunca regou? Covardia? Não. Pensemos num nome menos eufêmico.
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Enfim, covardias à parte... Arnaldo Antunes é uma criatura doce. Ponto final.

sábado, 3 de outubro de 2009

Destempo

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Era a primeira vez em muitos anos que eu não via Florentino Ariza* sentado sob a acácia da praça, que eu não pensava em Florentino Ariza. A manhã havia parado de correr às 08 horas, cristalizada num tempo imóvel, no ar inerte, no súbito silêncio do trânsito e dos cachorros que suspenderam a travessia da faixa de pedestres para olhar em direção ao nada, pressentindo a imobilidade do tempo. O mendigo itinerante que naquele dia morava no canteiro ouviu a tristeza das raízes das papoulas sob a terra há dois meses sem chuva. Uma menina que viera de longe para assistir ao sol dos trópicos com sua pele amorim e sua sombrinha floral paralisou-se atenta ao céu, espremendo entre as pálpebras o azul juvenil das íris. Pelo tempo que durou o destempo. Passaram-se minutos que podem ter sido horas, que podem ter sido dias, meses, qualquer medida oficial de tempo, quando a manhã voltou a correr. Mas os relógios nos pulsos, nos bolsos, nos painéis ofuscados pela claridade das 08 horas marcavam ainda 08 horas. Foi quando os cachorros prosseguiram a travessia, o mendigo moveu o silêncio em direção à menina de sombrinha floral, que por sua vez apressou o passo atrás das borboletas que sobrevoavam as papoulas. Somente Florentino Ariza não voltou a aparecer sob a acácia. Foi necessário o destempo para apagar minha lembrança de Florentino Ariza.

*Personagem de Gabriel García Márquez em O amor nos tempos do cólera.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Frederich

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Na manhã em que seu navio voltou ao porto de origem, Frederich Spassky estava nas tabernas do cais, agarrado às putas que faziam alvoroço em torno de seus olhos azuis e de sua pele curtida pelo sol de muitos mares. Foi abandonado para sempre nestas terras estrangeiras. Primeiro se desesperou, teve vontade de se matar, depois se acostumou, e fez do novo porto sua pátria. Arrumou-se na vida, arranjou mulher, filhos e um barco pesqueiro, embora nunca tenha deixado de pensar na Rússia e em sua amada Narkissa. Não sabe quantos anos tem. Diz ter chegado a uma idade em que não se contam mais os anos, mas se continuam a descobrir muitas coisas. Descobriu, por exemplo, onde é o lugar mais longe do mundo: a terra estrangeira. Frederich circula pelo cais com a desenvoltura dos experientes marinheiros e ainda ajuda a alimentar o mercado clandestino de ervas. Numa noite de cantorias na praia, chegou-se à nossa roda vestido de branco e com um sorriso trazido da juventude. Pediu um pouco do vinho em troca de um poema e nos fez a alma ferver de êxtase quando recitou Maiakovski em russo. Ontem me disse ter sonhado que atravessava um mar de tulipas amarelas. Hoje se demorou mais em seu aceno quando me viu na janela. Fiquei triste olhando ao longe sua cabeça branquinha, acesa pelo sol do cais. Frederich Spassky sabe que está prestes a encontrar o navio que levará a todos a uma pátria única.

domingo, 20 de setembro de 2009

Das coisas de ser

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Então comecei a ser coisa. De passagem pelo setembro acanhado de incertimentos, carregava perguntas nas cordas das sandálias, preguiças penduradas nas pontas dos dedos, delicadências nas raízes dos pêlos. E a ilusão de que havia silêncio nas pedras. O vento me oferecia uma cadeira à sombra de violetas, e ali a morte vinha dizer que o tempo tem cor, zombando da minha descompetência para ver a cor que me teve a infância. Era assim que eu repetia os crepúsculos. Sintomas de solidão até a luz dos vaga-lumes. Do tempo que passo em estado de coisa, me acostumei a ser coisa... pedra gozando vento, pétala à flor da água, grão de areia brotando em vegetal, voz de grilo na trilha da noite. Quando me vier o anjo perverso que se ocupa em me esvaziar em desertos, me dirá mais uma vez que vou morrer na vigésima quinta hora mais oblíquos minutos. Não me causará mágoa porque agora me sinto coisa em minha postura e deseternidade. Poderá me encolher em desfolhamentos se assim eu for folhagem. Sendo pedra, lhe direi um sorriso mineral, varado de amanhecer. E pássaro em repouso, um olhar breve que se amansa em nuvens. Acostumei-me a ser coisa, e quando a nova manhã soprar a lufada de céu sobre meu rosto, quero apenas ser terra que germina outras coisas num dia inventado de azuis.

domingo, 6 de setembro de 2009

Diálogos impossíveis

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Aos domingos eu fuço gavetas. Nem sempre encontro o que quero, mas às vezes encontro coisas possíveis, como estes diálogos impossíveis, exercícios de um tempo improvável.

I
- O que você pensou antes de morrer, Ferdinand?
- Pensei na vida...
- Passou um filme?
- Sim... de toda a vida.
- Só acontece com os suicidas?
- Isso eu não sei...
- E se eu me matasse?
- Pra ver o filme?
- Sim.
- Me deixe quieto!

II
- Se você queria me impressionar...
- Desculpe...
- Não devia ter ficado reparando...
- Eu já disse desculpe...
- No meu modo de comer.
- Mas eu percebo a velocidade de tudo...
- Ah...
- E você come a 360 quilômetros por hora.
- Fala sério!
- É científico. Você devia saber...
- Pra mim chega!
- Que um estudante de Física tem esses vícios.
- Eu vou embora...
- Ah, fica... você é tão inteligente, tão oculta...
- Tchau!

III
- Querido, o que quer dizer intermitência?
- É quando uma coisa só acontece em intervalos.
- Grandes intervalos?
- Pode ser.
- Como o sexo?
- Que sexo...?
- Da gente...
- Que livro é esse que você tá lendo?
- As Intermitências da Morte.
- Por que você não vai ler outra coisa?

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Minha vida com Johnny

Cansei da vida ao lado de Johnny Depp. Estou decidida a abandoná-lo. Sentirei falta de passar seus ternos risca de giz, de escovar seus chapéus, de lhe dar banho quando acorda triste porque Tim Burton não telefona há dias. Terei saudade de quando me arrebata em pleno canteiro de samambaias, implorando que o chame de Don Juan de Marco, mas não posso mais suportar suas crises de identidade, as ocasiões em que exige carnes sangrentas na mesa do almoço, rum na hora do chá, em que sai à rua com os cabelos desgrenhados e uns terríveis olhos contornados de preto, dizendo agora tragam-me o horizonte. Nestes dias, se não o chamo de Jack Sparrow ele não atende. É um excêntrico galante, riem com simpatia os bajuladores. É um exibicionista ordinário, penso, convicta. Mas lhe sou grata por nunca ter acordado com crise de mãos de tesoura.
Não fiz segredo de que como Chapeleiro Maluco ele está a cara do Elijah Wood, e desde este episódio resolveu me dar o troco, como se eu fosse a culpada: comprou um corcel 74, azul piscina, equipado com potentíssimo equipamento de som, que anda exibindo de porta-malas aberto na frente dos bares onde estão meus amigos. Compreendo sua estratégia, mas respeito mais a minha. Digo-lhe você só me faz vergonha, Johnny Depp, e ele vai dormir como um menino, se sentindo vingado.
Hoje atravessou o dia desejando matar o Gato de Cheschire, de quem morre de ciúmes. Diz que não pode mais tolerar o riso do felino, e mal percebe que não posso mais tolerar seus desmandos. Jamais lhe darei a chance de me dizer primeiro nós dois nunca teríamos dado certo, mas receio que o abandono lhe atrapalhe a estreia de Alice... Antes isso, porém, do que amanhecer qualquer dia como uma noiva cadáver.


domingo, 23 de agosto de 2009

Tsarphatah

Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo entendimento. - Clarice Lispector


Esta tarde sonhei com os pães de Bete, a viúva de Sarepta que nunca ficou sem farinha e sem azeite. E quando havia apenas um pouco de farinha numa panela e um pouco de azeite, Bete multiplicava pães que depois distribuía com generosidade a quem fosse a Tsarphatah. Tenho voltado lá sempre, e tenho encontrado o forno apagado. Na porta de Tsarphatah a mensagem resoluta de adeus.

Esta tarde sonhei com os pães de Bete. Era Márcia quem estava em minha cozinha fazendo a mistura da massa, e depois me mostrava sorrindo o pão redondo como uma lua que aprendera a fazer com Bete. Vamos multiplica-los, e embrulha-los em papel de seda, dizia Márcia, iluminada pela presença de Elias, o profeta das viúvas, que nunca deixou Bete só.

Não posso compreender a ausência de Bete, porque nunca pude compreender minha própria fome. Tenho precisado do pão que a viúva de Sarepta preparava. Do braço de Deus estendido sobre a minha cabeça. Da palavra do Messias que falava com Elizabeth enfatizando a letra i de seu nome, como em inglês.

Acordei com saudades de Bete, e meu desamparo foi maior quando bati nas cinco portas de Madame Poison e ela não abriu nenhuma pra eu ver se havia algum pão.

Bete disse um dia que a própria bíblia não dá conta de como termina a história da viúva de Sarepta. Quanto a mim, não posso voltar a dormir em paz sem uma resposta. Bete encontrou uma explicação para a vida?

sábado, 15 de agosto de 2009

Eu no Woodstock

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Se em 1969 eu tivesse uns 20 anos, seguramente teria ido ao Festival de Woodstock. Ainda que pra isso eu precisasse antes passar meses vendendo coxinha, lavando roupa pra fora ou entregando leite nos portões da madrugada, nas ruazinhas esmigalhadas de solidão de minha cidade perdida nos pinhais do Paraná. E ainda que isso só servisse para a passagem de ida.

Por isso acho que nasci na época errada. Se tivesse nascido pelos anos 50, não teria sido necessariamente hippie, mas também não teria perdido a oportunidade de usar saias e cabelos imensos, ou de criar meus filhos como índios, ou ainda andar por aí mostrando pra todo mundo aqueles dois dedinhos mágicos dizendo paz e amor... e de ter ido ao Woodstock, é claro.

Mas não é só isso, que o meu desejo não é tão superficial. Se tivesse nascido nos anos 50, poderia até ser chamada hoje de dinossauro por minhas filhas ultra-jovens, mas não tenho dúvidas de que seria um dinossauro libertário, que traria no sangue, no olhar e nas atitudes a essência do movimento hippie, pois sua essência perdura, a despeito da morte dos saiões, dos cabelões e de todos os símbolos exteriores consumíveis.

Eu sei, eu sei. Não é preciso ter nascido hippie ou ter ido ao Woodstock para se ter ideias libertárias. Mas naquela época era mais original, reconhecia-se um libertário pela roupa, pelo cabelo, pelos olhos, pelo vocabulário... hoje até o mais genial marginal criativo é confundido com o conservador burguês, etcétera e tal, esse papo está ficando caretão.

Se eu pudesse ter engrossado os coros contra o consumismo, contra as guerras e pelo amor, e depois disso ainda ter rolado na lama do Woodstock, dormido no campo do Woodstock, visto luas brotarem das poças d´água do Woodstock e ainda acordado em plena segunda-feira ouvindo Jimi Hendrix no Woodstock... ai, ai. Quem me conhece, não se iluda com uns certos modos clássicos de minha aparência. Aqui dentro existe uma criatura derrubando cercas e vivendo overdoses de chuva no Woodstock.

Eu não vivi o movimento hippie nem fui ao lendário festival, mas como consolo ao meu sonho frustrado e ao calor tempestuoso da noite, quero deixar claro que continuo fazendo o amor e não a guerra, que tenho sobrevivido a toda forma de autoritarismo, combatendo o meu próprio e descobrindo o amor libertário. Ave, Roberto Freire!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Ballet

Para Aline
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Deito-me na laje morna junto aos gatos que há horas se entregam lânguidos às próprias línguas. Os fios de luz do crepúsculo escorrem translúcidos sobre os telhados. No quarto fechado, a pequena bailarina ouve Chopin e dança de sapatilha de ponta o seu petit ballet, sem importar-se que umas notas fugitivas do piano escapem por debaixo da porta e venham refugiar-se junto aos gatos. A este sinal, asas brancas dançam nas lonjuras azuis, nuvens dançam fluidas na atmosfera rosada, jovens folhas dançam coladas aos corpos das árvores, enquanto as velhas folhas rodopiam soltas com a brisa. A bailarina vem para a laje, onde há liberdade para o seu grand jeté, deixando Chopin vivo no quarto. Abraço um dos gatos, e num rompante de ternura, penso dançar com aquele cego que não podia ver a primavera em Paris.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Túnel do tempo

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Acreditem: levei 30 anos para aprender a letra de uma das canções que mais me encantaram quando eu era uma pré-moça. Se por aqueles dias alguém com poderes para previsões tivesse me dito você vai saber cantar esta música... daqui a 30 anos, eu teria tido um arrebatamento, uma síncope, uma crise existencial. Como é que eu ia saber o que eram 30 anos adiante? Era a mesma noção que eu teria hoje de 300.

Testei isto em minha filha mais nova, minha pequena bailarina, quando ela pediu pela trigésima vez sua sonhada sapatilha de ponta. Você vai ganhar... daqui a 30 anos! E fiquei esperando a reação. Foi de total descrédito. Os adolescentes não acreditam em nada do que a gente diz... mas fazem menos dramas.

Pois quem imaginaria? Aprender aquela música foi um dos meus maiores desejos, quando meu acesso aos discos, aos aparelhos eletrônicos, à sintonia das rádios era difícil.

30 anos, e assim, quase do nada, pesquisando umas coisas nas veredas do google, me encontro com ela, clara, transparente, com todas aquelas mágicas palavras que fizeram o encanto dos meus 13 anos: a letra. Embora na época eu não percebesse, já era a letra que primeiro me chamava a atenção.

O tempo brinca mesmo com a cara da gente. Literalmente, inclusive. Durante os 30 anos eu não procurei pela canção, embora esporadicamente me lembrasse dela, e nunca mais a ouvi em lugar nenhum. Eu podia ter aproveitado um milésimo desse tempo para procurá-la e provavelmente a teria encontrado, uma vez que eu sempre soube quem é o compositor. Mas o tempo sempre me desviou para outras viagens, outras ideias, outras canções.

Eu devia saber que ela havia de me chegar um dia. Estava escrito. Não preciso dizer que agora a tenho cantado diariamente, envolta numa espécie de espiral do túnel do tempo.

Não esperem que eu diga de que música se trata. Desnecessário. O encanto está no sentido que o tempo lhe deu, no que ela representa para minha vida. Se fosse possível cantá-la pelo blog, então eu a cantaria.

sábado, 1 de agosto de 2009

Despertar em agosto

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Acordei em agosto com desejos incendiários! Ateei fogo às más lembranças, aos sapatos que dão calo, ao vestido que não cabe mais porque o corpo resolveu engordar a revelia. Incendiei o antigo bilhete que conservava sobre a mesa, cujas letras diziam até qualquer dia. Toquei fogo na teoria do acaso, pra não mais aceitar o destino passivamente. Na dúvida, na indiferença, nos farelos de vagabundo que resistiam no lençol. Hoje queimei de minha vida toda forma de pobreza e tudo o que escraviza o ser. A burrice, as máscaras, o paradoxo, o medo da dor. Talvez mais tarde eu queime fogos. Mas agora vou por aí, assobiando uma valsa de Maurice Ravel.

domingo, 26 de julho de 2009

Souvenir


Tonico come formigas e diz que elas têm sal. Diz que toda vez que vê um dinossauro tem vontade de pega-lo. Eu escrevo e armo no papel meu pequeno tabuleiro de palavras-souvenirs e lhe pergunto aonde viu um dinossauro. Ele aponta em inúmeras direções o dedo pintado de tinta óleo azul. Inclusive o cirro mais alto da tarde, um rabinho de cavalo. O tabuleiro está pronto... Lírico, trepidante, libertino, platiplanto, entre outras palavras que vão dar no sem fim. Pergunto a Tonico se ele sabe fazer avião. Não. Quer aprender? Não. E fica olhando de perto minha imperícia em dobrar papel. Demoro, para ganhar importância. Quando enfim lanço em vôo as palavras-souvenirs, vejo os olhos encantados de Tonico, que refletem um pequeno avião de papel sobrevoando um dinossauro.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Esperando agosto

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Eu era bem menina quando me ensinaram que agosto era mês de cachorro louco. Fazia sentido: no lugar onde eu morava, nos confins do Paraná, o clima de agosto era propício à proliferação do vírus da raiva canina. Cachorro louco era coisa comum por lá, de forma que cresci com este agosto estigmatizado na ideia. Além de mês de cachorro louco, era o mês da bruxa solta, do azar desgovernado e uma série de outras crenças.

Pelo mundo inteiro agosto é uma ameaça porque historicamente coisas terríveis aconteceram neste mês, gerando paranoias universais. Mas no balanço geral, acredito que outras coisas não menos terríveis aconteceram em outros meses e nem por isso se teme outros meses.

Foi em agosto que as cidades de Hiroshima e Nagazaki foram destruídas pelas bombas atômicas, foi em agosto que Hitler assumiu o governo alemão e começou a fazer o diabo, que Nelson Mandela foi preso, que se iniciou a construção do muro de Berlim, que Elvis Presley, Marilyn Monroe, Trotski, Nietzche e a princesa Diana morreram, que nasceu Bill Clinton...

Em compensação, foi em agosto que nasceram Herman Melville, Louis Armstrong, Alfred Hitchcock, Jorge Amado, Tolstoi e a Madre Teresa de Calcutá. Se isto não é suficiente para demonstrar que agosto é um mês injustiçado, foi em agosto que se iniciou o Festival de Woodstock, do qual eu poderia ter participado se não morasse nos confins do Paraná e se não tivesse três anos de idade. Mas este desejo é assunto pra outro dia.

Agosto só se tornou agosto em homenagem ao imperador romano César Augusto, que não queria ficar por baixo do imperador Júlio César, que por sua vez já era dono do mês de julho. E como julho tem 31 dias, César Augusto bateu o pezinho e disse: eu também quero! Por isso agosto também é de 31. Antes desta crise de frescura, agosto se chamava Sextil.

Pra quem não sabe – e eu também não sabia até hoje, parte do medo do brasileiro do mês de agosto foi herdada de Portugal. Como a época era a melhor para o início das navegações, em Portugal mulher nenhuma queria casar em agosto, porque o marido ia embora pro mar e em muitos casos nunca mais voltava. Morria afogado, se arranjava com outra em outro porto, etc... É por isso que no Brasil se diz que casar em agosto traz desgosto. Agora, não lavar a cabeça no mês de agosto, porque disque isso chama a morte, é coisa de argentino.

Portanto, prefiro esperar agosto como quem gosta da vida, e não como quem espera uma chuva ácida.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Querido pai

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Meu pai tem nome de poeta: Casemiro... Nasceu no Rio Grande do Sul, na década de 1930, mas não chegou a antenar-se nunca na efervescência cultural da época, na revolução industrial, na nova poesia modernista, nos romances regionalistas, na popularização dos automóveis e etcétera. Morava nos mais longínquos rincões gaúchos e precisava plantar e criar o que ia comer. Mas ouvia rádio nas altas oito horas da noite, cansado de roça, espiando pela janela a cadência das estrelas sobre o matão e com a cama já preparada para dormir. O arado à espera para a madrugada do outro dia.

Por isso sei que os ouvidos de meu pai foram educados pela mais pura música sertaneja de raiz, aquela que cantavam Cascatinha e Inhana, Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho... Aquela mesma que ele teimava em continuar ouvindo em discos antigos quando eu já era adolescente e morria de rir de seu gosto pré-histórico.

Um dia, muito tempo depois – eu já era bem adulta – surpreendi meu pai encantado com uma música que eu costumava ouvir nas ocasiões em que tentava desvendar o que fazer para unir o fio das minhas saudades à presença real do objeto de minhas saudades... Era Louis Armstrong cantando What a wonderful world.

Ontem entrei no supermercado no justo momento em que no sistema de som ambiente Louis Armstrong começava: I see trees of green, red roses too/ I see them bloom for me and you/And I think to myself/what a wonderful world... A música de meu pai, pensei, e então de repente me lembrei que era o dia de seu aniversário. 13 de julho. Seu Casemiro estava fazendo 74 anos.

Deixei lá na cestinha o pacote de arroz com brócolis que fui comprar. Saí do supermercado para chorar de saudade de meu pai no meio do sol de meio-dia, pois já era tempo de arrepender-me das tantas vezes que zombei do sertanejo que havia em sua alma, as mesmas vezes em que ele desligou o disco de suas poucas manhãs de folga somente para me agradar.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Semeadores de utopias

Estou começando hoje a compor uma lista de nomes que tiveram e têm relevância nas lutas pela preservação do meio ambiente em todos os tempos. São os semeadores de utopias ligadas à natureza. Gostaria de receber sua contribuição. Acrescente, belos olhos e doce coração que me lê, um nome a esta lista que até agora está ssim:
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Chico Mendes, Liev Tolstói, Buda, Dorothy Stang, Bacon, Rousseau, Aristóteles, Virgílio, Fernando Gabeira, Marina Silva, Mary Allegretti, Antônio Alves,Vandana Shiva, Brundtland, Muir, Carson, Darwin, Thiago de Mello, João Alberto Capiberibe, Christiane Torloni, Lovelock, São Francisco de Assis, Marx, Mahatma Gandhi, Heidegger, Betinho, McKibben, Al Gore, Júlio Roberto, Tom Jobim...
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Muito obrigada. A razão eu conto depois!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Meninos de julho

Do livro Lugar da Chuva
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Em caminhadas crepusculares pelas ruas da cidade, pergunto-me por onde estarão perdidos neste setembro aqueles meninos que soltam pipas em julho. Vi um deles passando ali pela esquina entre as avenidas Rio Pedreira e Rio Tocantins. Sobre sua cabeça havia mil bolhas imaginárias ocupadas pelas maquinações da infância, bicicletas voadoras, sapatos com imensas molas propulsoras, asas de papelão, o sonho pré-histórico de voar alimentado pelo homem... Ia cabisbaixo, esperando julho chegar. Um outro atravessava distraído a monotonia da praça Chico Noé. Talvez pensasse em como seria bom se, em vez de empinarem pipas, pipas empinassem meninos. Os outros, não sei por onde andam, neste setembro vazio de meninos nas ruas, quando os jambeiros da General Rondom derramam flores nas calçadas e as mangueiras da Leopoldo Machado repousam até abril.
Os meninos de julho amanhecem colorindo com pipas o céu às margens do Amazonas dourado, cujas águas ondulam desde o princípio do mundo. Circundam a secular Fortaleza de São José de Macapá, onde dormem os negros que a construíram, iluminados pelo sol menino que penetra as paredes de pedra. Correm incansáveis e descalços no sedimento da praia, até que se acendam as luzes do trapiche, até que julho termine.
Agora que o menino está sonhando, Macapá sente a falta de pipas cruzando o céu, transportando o sonho de voar do menino.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Considerações sobre o nada

A formiga adivinha a linha que leio no centro da página e percorre as letras em disparada, até a palavra poeira. O que quer me dizer? Pra sacudir a poeira? Pra deixar a poeira sentar? Formiguinha infame! No mínimo, levantou minhas poeiras passadas. Se pelo menos tivesse parado na palavra acordeão, telúrica, ou vento... Como se quisesse desculpar-se, ou responder às minhas indefinições, ela corre para o meio da linha seguinte e fica descansando sobre a palavra nada. Fecho o livro? Ou a deixo continuar provocando minha incrível disposição para os pensamentos inúteis em plena manhã de segunda-feira?

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Aventura

Às vezes acho Macapá uma cidade estranha. Noutras tenho certeza. Meus leitores daqui me compreendem. Os demais devem limitar-se a visualizar a situação, e jamais pensar que Macapá é o fim do mundo. Só a quem é daqui ou mora aqui há 23 anos é permitido pensar isso. E a gente aproveita esse privilégio pra pensar coisas bem piores.

Resolvi me aventurar no domingo à noite em busca de um hambúrguer. A pé, porque calculei que a barraca da esquina estaria à minha espera. Não estava. Sempre em frente, como o Legião – e evitando a direção da beira do rio, onde a metade da população passeia, come churros e corre atrás de crianças tresloucadas no domingão – andei quase um quilômetro sem encontrar o hambúrguer. Um cheese banana, então, nem pensar.

Costumo pensar muito quando caminho – tem gente que fala sozinha, chuta pedras, apedreja cachorros – e ia pensando em como é interessante que sejam as perguntas, e não as respostas, que movem o mundo, quando dobrei a esquina da Padre Júlio com a Tiradentes e dei de cara com uma multidão parada na calçada. Assim, depois do nada. Uma multidão.

Eu não sei o que aquela gente toda estava fazendo ali, imagino que esperando por uns 15 ônibus, mas nem é isso o que me interessa. Foi o susto de ser engolida por uma multidão que olhava na direção contrária o que me fez sentir meio perdida, com a sensação de estar numa cena do Expresso da Meia Noite, ou de ser observada por todos: pelo rapaz que cantava eu vou fazer um ie-ie-iê romântico, pela grávida escorada no poste, pela mulher que assustava o filho dizendo que lá vinha o homem do saco (embora todo homem tenha).

Passei, e nada do sanduíche. Pra resumir, depois de dar mil voltas, encontrei uma barraca numa praça erma, a da Conceição... não porque seja distante, mas porque a falta de iluminação e o mato crescido a tornam desolada. Sua única beleza hoje é ter hambúrgueres para quem tem fome.

Voltei comendo o sanduíche pela rua, evitando pontos de ônibus com multidões, esquinas escuras – nunca se sabe onde se vai dar de cara com o homem do saco – e pra minha surpresa, ao dobrar outra esquina, fui surpreendida com a boca cheia de sanduíche por uns 30 fiéis da Comunidade Cristã de Macapá (pertinho da casa do falecido Brow), que tentaram me arrastar para aceitar Jesus.

Eu aceito, eu aceito! Mas primeiro me deixem terminar de comer, disse a eles, e em sua primeira distração, empreendi a fuga. No próximo domingo à noite, vou ficar em casa, vou comer as sobras do almoço. Se tiver.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Madrigal da manhã

Da série Breves Contos
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Atravesso a cavalo por entre os tanques de guerra encalhados em trilhas de sangue sobre o asfalto, deixando para trás o rio que corre em pororocas para o mar, arrebatando ilhas e submetendo árvores. Os abrigos subterrâneos esquecidos foram tomados pelas raízes das mangueiras apedrejadas desde a criação e pelas garrafas vazias que percorreram bueiros em busca do rio que procura o mar. Procuro a montanha que em verdade não há, porque não posso conter o galope. Nas ruas, rebeldes disfarçados de piratas enforcam animais de pelúcia e saqueiam os corações das mulheres. Mágicos trajados de soldados da paz arrancam dos quepes pombos macambúzios que se abalam rumo à montanha que não há, surpreendendo os mendigos que seguram rosas entre os dentes devastados. Nos salões, os generais dançam tango, embrulhando sua nudez em toalhas de linho, calçados com os scarpins das mulheres, enquanto os cães urinam nos mocassins e devoram na mesa o banquete intocado. Estendido numa calçada, um exemplar do Le Monde exibe a fotografia dos hipopótamos mortos pelo antraz que apodrecem nas ruas em Uganda. A manchete diz que a África não possui dólares suficientes para enterrar os cadáveres. Soterrado pela animalidade, salto do galope com destino ao limbo, derradeiro abrigo, onde poderei ser pós-humano. Acordo às seis, pensando em Gerineldo, que um dia percebeu o vazio da guerra e foi envelhecer na varanda, olhando a chuva.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

O leite derramado

Ainda ontem, quando vi dois mergulhões viajando em direção às ilhas - embora todos os dias eu veja - percebi que janeiro, fevereiro, março, abril e - pasmem - maio já ficaram para trás. É que os mergulhões batiam as asas de um modo indiferente, como se achassem que em junho não há poesia. Não brincavam no ar rosado da tarde no rio Amazonas, como faziam até o mês anterior: simplesmente voavam para as ilhas, consumando o tempo.
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Perdoem-me pelo simplismo de começar falando em passarinho... é que não encontrei nada mais leve que o vôo de dois pares de asas para dizer que a carga de quase seis meses mal vividos está esmigalhando minhas pobres costelas. Quando me dei conta de que estamos em junho, tive vontade de olhar nos olhos de cada caminhante do parque e perguntar em franco desespero: você acredita?
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É tarde para colher a esperança fresca do novo janeiro, para esbaldar-se nas alegrias de fevereiro, ainda que tudo acabasse na quarta-feira. É tarde para amansar o coração sob as chuvas de março, para tomar um dos navios que partiram em abril levando cães clandestinos e amores extraviados, ou ainda ver os anjos dançando cirandas em torno de Maria em maio... é tarde.
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Mas ainda dá tempo de colher mansas chuvas que estendem desertos na madrugada, de ler o Leite Derramado, do Chico Buarque, sem chorar o leite derramado. Dá tempo de dobrar uma esquina e dar de cara com a primavera que virá, trazendo quem sabe o aviso de um novo amor em seus ventos de rio, tempo para ouvir os sonhos de Júlia, o riso de Olívia, as canções pacifistas de Bob Marley. De confiar na reconciliação entre os povos e descobrir que "é preciso não se recusar à vida", antes que a morte, entre outras tantas coisas...
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E antes que os meses vindouros comecem a pesar também sobre os ombros, voltemos a falar em passarinho... há um bem-te-vi me esperando no galho encostado em minha janela.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Ágata

Da série Breves Contos

O corpo veludo pérola do oriente se levanta leve, entre a intenção e o bocejo, no dia líquido de céu turquesa. Ela anda em direção à esquina, e os olhos verde jade, lânguidos da tarde entregue à preguiça, lambem o colar de topázio azul da vitrine. Perde-se parada a sustentar o desejo na língua quartzo rosa, envolta na brisa do mar esmeralda, e se volta à melodia do canto que chega do jardim de pássaros safira. É o fim do crepúsculo opala quando atravessa de volta entre os transeuntes que fogem do anoitecer que se prenuncia em granada castanho. Na sala, abandona-se aos dedos decorados em água-marinha que lhe enfeitam o pescoço com o pingente de ametista, e como em passos de petit ballet, salta felina para o telhado a miar para as estrelas diamantes que cintilam no ônix da noite.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Esses dias...

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Faz dias que nada penso, nada escrevo, nada prometo... Culpa de Thiago de Mello, poeta e louco, que me ensinou a brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

I

Escrevi uma pequena série que não pretende se enquadrar em nenhuma forma literária – nem conto, nem crônica. São apenas textos que fluíram do desejo de dizer... Dei à série o nome de Cartas.


Deus, não espero que a esta carta o senhor responda formalmente, já que não me respondeu a tantas outras. Mas espero por um sinal. Se o senhor se aborrecer, pode responder com um temporal que arranque as telhas da minha casa, por exemplo. Antes assim do que me deixar pensando que para o senhor eu sou apenas uma bolha n´água.
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Estou lhe escrevendo para dizer que acho que o senhor dorme, sim. Ao contrário do que dizem os pára-choques dos caminhões, que Deus não dorme. E acho inclusive que o senhor anda dormindo de touca, perdendo a boca e fugindo da briga, senão como é possível explicar essa vida tão torta?
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Eu sou um cara simples, que até pra escrever precisa da ajuda dos poetas, de quem vive tomando versos por empréstimo. E pra não parecer leviano poderia enumerar razões para a certeza de que o senhor dorme, mas esta é tão grave que deve ser suficiente... olha: João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.
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Percebe o tamanho do desencontro? É a maior das catástrofes humanas. Se Lúcifer tivesse vencido a revolução contra o senhor, talvez tivesse administrado as coisas de modo mais simples: João, Teresa, Raimundo, Maria, Joaquim e Lili se amariam uns aos outros, e viveriam em recíproca e constante entrega de seus corpos e almas, sem que isso representasse uma vergonha. E seriam todos felizes. Não vamos nos enganar.... Lúcifer é um libertário!
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Eu não queria parecer vago nem obtuso, mas o mundo sob o seu comando anda muito paradoxal. Em quem eu devo acreditar enquanto o senhor dorme? No sujeito que disse que existe muito mais inferno entre o céu e a filosofia do que possa supor meu vão mistério? Em que eu devo pensar enquanto espero providências: no poder da olfação dos gnus? Na migração sazonal das borboletas amarelas?
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Lili continua sem amar ninguém, e eu me despeço sem pedir desculpas, porque não sou do tipo que morre de medo quando o pau quebra, embora haja quem diga que eu não sei de nada e que eu não sou de nada. Assino embaixo tudo o que disse. As outras dúvidas que possuo ficam para a próxima carta, que o senhor poderá ler quando acordar. Se...

sábado, 9 de maio de 2009

Presente

Continho para minha mãe

Nas noites mais escuras, sem lampiões nas esquinas castigadas de poeira, extintos já os vaga-lumes na paisagem calcinada pelo sol da eras, sentávamo-nos à beira da rua, nossa mãe apagava a única lamparina da casa e pedia que fechássemos os olhos para ouvir as histórias que ludibriavam nossas dores antigas, nossa fome hereditária e o sono milenar de deus que nos eternizara no esquecimento, até que chegava o momento mágico em que ela nos dava o sinal para abrir os olhos, e então emergíamos da escuridão e dos abismos de toda a vida, para receber, por suas mãos iluminadas, o fabuloso presente do acender da lua.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Divaganças e desesperações

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Tenho um amigo que anda pensativo sobre o destino humano, sobre o que somos e o que estará reservado a quem tem, por uma vida inteira, se dedicado a errâncias. Graças a Deus é só um. Nas ocasiões em que o encontro me sinto tentada a lhe dizer, com toda a crueza que tenho aprendido comigo mesma, o que penso sobre a epígrafe de um livro do Saramago – As Intermitências da Morte – que diz: saberemos cada vez menos o que é um ser humano. Mas tenho medo que lhe soe como uma terrível e invencível verdade. E que isto lhe mate o resto de esperança de descobrir de repente que somos qualquer coisa que o Céu aproveite mais tarde.

Prefiro continuar a vê-lo com o olhar perdido para as lonjuras do rio Amazonas, e ouvi-lo dizer as estranhezas permitidas a quem está chegando aos sessenta. Eu respeito sua cabeça branca. Outro dia me disse, com os olhos rútilos mirando o copo de cerveja: semana que vem vou passar 14 dias sem beber. Aperto-lhe a mão e lhe digo: Claro, eu compreendo como será comprida sua semana. Ele não entende. Está outra vez pensando na singular finalidade de nossa existência e importância no cosmos, se todos os seres vieram dos seres do mar, pra onde irão os bons e os bobos, os maus e os malas, etc. Eu penso no meu último desejo para o dia do juízo: lasanha de espinafre, que isso sim vale a pena.

Eu não mato suas esperanças, mas também não as alimento. Ando impressionada com a constatação de que o ser humano não muda, apesar da determinação científica de que a evolução nunca cessa. No futuro não teremos pelos no corpo... E daí, se estamos cultivando na alma monstros cada vez mais peludos e perversos que se expressam em nossas desumanidades diárias? Não. Não sou dada a obviedades existenciais. Já vou parar.

Depois de sua insólita promessa, meu amigo disse que não está contente consigo, que quer mudar, a burrice e a truculência com que tem se defrontado têm-no levado a repensar suas atitudes. E como tenha captado em meus olhos uma expressão de ceticismo nada sutil, arrematou: Ei, Lulih... eu estou mudando devagar. Reciclagem é fácil numa lata. Eu sou um ser humano. Foi a minha vez de estender os olhos para as lonjuras do rio. E meio envergonhada de minha própria desesperança, me limitei a divagar: por que todos os barcos são brancos?

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Continhos da Chuva

Fechei a porta na cara da chuva.
Ela nem viu que foi distração:
vingou-se no meu jardim,
deixando à mingua minha roseira...


Escondeu-se da chuva sob a árvore e
a árvore lhe choveu mangas sobre a cabeça.
Era um dia feliz:
foi comer manga na chuva.


Espiei a chuva mansa pela janela
enquanto ela espiava minha casa
pela goteira.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Quadro silencioso

Da série Breves Contos


Posto à margem pelos cachorros da casa, o gato dorme impávido sobre o dicionário aberto na mesa, a pata delicada e branca pousada na palavra segregacionismo. No canto oposto da mesa, as formigas devoram o doce esquecido pelo homem. A postos, os cachorros esperam que o homem venha abrir a porta para a corrida festiva nas ruas povoadas de folhas e odores de outros cães. À margem da vida nas alamedas do outono vindouro, o homem dorme incólume sobre o livro aberto na cama, a mão envelhecida e pálida abandonada num conto de solidão.

terça-feira, 21 de abril de 2009

O último dia da primavera

Da série Breves Contos

Não sei como ou quando, mas voltarei para ver os estragos da tempestade que deixei na cozinha onde preparei a poção, no guarda-roupa onde escolhi o melhor traje para a viagem. Levo um cálice de cristal com o líquido verde-azul, o canudo de prata e os sapatos mais leves ao admirável tempo novo. Não deixo nenhum recado, para que vejam que eu apenas não me preocupo. O tempo passará depressa até que saibam que escolhi o terraço mais alto para este último dia da primavera. Quando enfim me encontrarem, ainda haverá luz nas alturas da tarde e estarei luminosa em meu vestido de arco-íris, indiferente a todos eles, mergulhando o canudo de prata no cálice e soprando na janela infinita do crepúsculo inumeráveis e translúcidas bolhas de sabão.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

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Meus livros fazem fila para ir comigo ver os crepúsculos de abril. A cada dia levo um diferente, que mal pode disfarçar seu contentamento no calorzinho sob o meu braço.
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No primeiro dia levei um exemplar de bolso de poemas de Manuel Bandeira, escolhi uma beirinha de rio, sentei no chão e o coloquei ao meu lado... Pensava em abri-lo tão logo acostumasse meus olhos à paisagem, tão logo falasse umas palavrinhas com o rio e com os mergulhões que iam passando para o lado das ilhas - que eu não sou do tipo que ignora os bichos e os minerais - mas veio um vento cheirando à floresta, confundiu meu cabelo com folhagem e abriu o livro na página que bem quis. É este o poema que o vento quer, pensei, e fiquei por ali, lendo baixinho, no ritmo dissoluto das ondas.
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Ao longo dos crepúsculos fui levando Pablo Neruda, Cecília Meirelles, Alcy Araújo, Maiacóvski... de modo que cada crepúsculo teve o gosto da sierra, dos canteiros, do cais, da revolução.
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Hoje passeei com Rubem Braga, a quem sou fiel com a felicidade da moça que junto dele fica bestando na areia onde o sol dourado atravessa a água rasa. Na mesma beirinha de rio li Conversa de Abril, para que ouvissem as nuvens e uns tantos pares de asas: Eu pensarei em coisas longe; me perdoareis, porque na verdade vos levo comigo nessa dança triste...
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Sim, nessa dança louca nem As Coisas me escapará. Para o próximo crepúsculo, Arnaldo Antunes já está a minha espera.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Oh, efeito!

Uma brincadeira com Rondó de Efeito, de Manuel Bandeira - que há de me perdoar.


Olhei para ele com toda a ternura,
Disse que ele era lindo,
Que ele era brando,
Que ele tinha o toque de um deus:
Não fez efeito.

Virei vampira:
Usei cabelos vermelhos,
Batom de absinto - afrodisíaco,
Prometi uma rosa escarlate entre as pernas,
Sexo neotântrico,
E disse que o dele era de todos o maior.

À toa: não fez efeito.

Então encarnei a intelectual:
Ele era o elemento fundamental da minha fórmula,
Falei eu te amo em Armênio,
em Sânscrito e em Albanês.
Escrevi,
Recitei,
Desesperei
E comi a página onde havia a Canção das Lágrimas do Pierrot.
Decorei doze poemas de Flores do Mal para agradar seu gosto por Baudelaire,
E para boquiabri-lo de admiração, teorizei sobre o kama Sutra, (a literatura do desejo, por tal forma envolvente, que homem nenhum pode tocar no assunto sem ter copiosas ereções...)

Perdi meu tempo: não fez efeito.

Que sujeitinho insensível!
Foi uma antítese na minha vida,
Quase um anti-tesão.
Mas ainda mato sua indiferença:
Vou lhe enviar por email
Em arquivo descompactado
A fotografia do meu novo deus.
Nu.

É impossível que não faça efeito!

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Se eu estiver ausente
é porque estou ocupada
com o testemunho ocular
dos crepúsculos de abril...

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domingo, 29 de março de 2009

Inventário das coisas

Desde o amanhecer que percorro a casa à procura do que tenho. Tenho muito, pareceu-me até aqui. Ninguém no mundo precisaria ter tanto. Não é necessário ter todas as coisas que tenho para compor uma vida. Se não as tivesse, poderia ser até mais feliz... Mas tenho, e preparo o inventário, pois sonhei que logo estarei perdida no silêncio cósmico das noites sem lua.

O primeiro item do inventário: pressentimentos. Tenho-os em abundância, e só me são úteis para pequenas inutilidades como saber que no fim da tarde ouvirei o tilintar antigo do sino do carrinho de picolé. E quando na tarde o carrinho enfim passa, me traz uma profunda saudade de Ezequiel, que amava os picolés de tangerina e que morreu criança, bem no meio de minha primeira infância.

Segundo item: a solidão que nasceu no dia em que me perdi do olhar azul de meu anjo e que morrerá depois de mim. Não me serve para nada, mas não posso doa-la... Quem quereria cultiva-la, ela, que tem raízes subterrâneas, aquáticas e aéreas para perpetuar sua espécie?

Tenho um vestido de petit pois, um anel de azeviche e o livro das previsões, perdidos no baú de labirintos. Tenho um gato que mente que é de pelúcia para fazer uso da colcha de cetim, um cão que quer ser meu dono, um gato de pelúcia de olhos de falsa ametista que amedrontam o gato e o cão.

Acho que minhas coisas estão cansadas de ser. Encontro-as todas com o ar de enfado de ter a mesma cara desde o momento original. Se estão exaustas de mim, só posso dizer que eu delas. Mas temos, eu e as coisas, o consolo da libertação recíproca iminente. Quando eu estiver de malas prontas, fingirei um sorriso de prévia saudade. Elas haverão de me olhar com o alívio de me ver finalmente devorada pela porta de saída.

Tenho também um pacote completo de ilusões. Se tivesse ouvido o poeta, e jogado fora uma a uma ao longo do caminho, teria entendido como a vida é leve. Não dá mais tempo. Não dá mais tempo para o amor em prosa que tenho guardado na gaveta de uma cama que tem gavetas. Com o tempo que resta vou enumerar no inventário a constelação de néon, todas as palavras que continuam não ditas, o dicionário de Esperanto, o poeminho do contra rabiscado na mesa, a esperança de abril, a desordem do próprio inventário...

domingo, 22 de março de 2009

Contradança


Da série Breves Contos


Tranquei no quarto escuro meu anjo da guarda. Ah, se houvesse um calabouço, uma masmorra... Ficará no quarto por esta noite, suportando meus espelhos esféricos, meu baú de labirintos e o fantasma que na madrugada insiste em libertinagens. É o meu troco por sua negligência, por sua bússola louca que me levou a tantos desertos. Hoje veio me contar que a vida mente, acendeu um cigarro e disse que também foi ludibriado. Depois se estirou no divã e pediu seu bule de vinho das almas. Anjo herege e sem caráter... Ficará aprisionado enquanto pinto as unhas, enquanto enfeito o corpo em transparências e decoro o colo em pedras e metais. Se me perguntar para onde vou, lhe direi a verdade: ao inferno propor uma contradança.

sábado, 14 de março de 2009

Reticências

Deixe-me sozinha... morreu o trema. Sou mais uma entre milhões de órfãos piegas que andam chorando sua morte. Pobrezinho, tão protetor dos us desamparados dentro das toscas palavras sequela e tranquilo. Até linguiça, com a presença do trema, era menos bizarra. Ao deparar com a palavra, era regra que minha atenção se voltasse para os dois pinguinhos parecidos com dois olhinhos meio desconfiados olhando de baixo para cima o altivo pingo do i. Pois o novo acordo da Língua Portuguesa matou o trema, e ele nunca mais deverá ser visto cobrindo a concavidade dos us, que vulneráveis às intempéries, se encherão de poeira e folhas secas e chuva. Estou triste, mas antes o trema que as reticências...

Ai de mim, se o acordo – que não é reforma – matasse as reticências. Nunca mais meu texto seria o mesmo. Tenho um caso de amor com elas que vai durar pelo tempo necessário para exprimir as coisas mais naturais e mais fundas de alguém que adora os dramas e umas tantas sentimentalidades, já que todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo. E no meu caso, além das vírgulas, é claro. Ao iniciar qualquer escrito, tenho sempre à mão um bom saco de vírgulas, usado sem a menor economia. De vez em quando uma delas cai no lugar errado e fica lá agonizando, até que eu a veja e a pendure na palavra certa. Isto quando ela não se eterniza, errante e perdida de tristeza, entre um sujeito e um verbo.

Mas as reticências, estas são parte da minha vida, que por sua vez está no que escrevo. Elas empregam às palavras a doçura que não encontro jamais nos homens e são como janelas que me permitem contemplar o infinito significado de uma frase dita pela metade, de uma verdade que sabe não ser absoluta, de uma anunciação que se quer interminável, ou ainda de uma coisa qualquer que possa ser desdita, porque mudamos de ideia, afinal... só quem está morto não muda.

Preste atenção: hoje é sábado, vá olhar o rio de sua cidade – se aí houver –, contemple a forma de pelo menos um distante cirro, sinta o cheiro da árvore mais próxima... embora, e talvez, você não tenha percebido, a paisagem também tem reticências. Espane a poeira de um livro e o abra numa página aleatória. Se houver ali uma frase reticente, leia a página toda. Se fizer tudo isso, você terá colocado uma reticência em sua vida. E nunca vai se arrepender. Elas têm infinitamente mais poesia que os pontos finais...

sábado, 7 de março de 2009

Por enquanto

Inspirado em Por Enquanto, de Renato Russo.

Pobre Baby Zen, que apanhou na rua. Trouxe para casa um braço puído, uma mochila ferida, as mãos lacrimejantes e nos olhos uma flor. A flor do parque por onde andeja junto aos cachorros que ainda não puderam empreender a fuga no navio. O navio que não quis partir antes de abril, porque só em abril haverá poesia para partir. Baby Zen está triste, as pancadas lhe partiram menos a cara que o coração. Pergunta-me o que mudará ao mudar a estação, porque pensa que de tudo eu sei. Nada vai conseguir mudar o que ficou, Baby Zen, eu lhe digo, na silenciosa intimidade com o infinito e com a ternura resignada de quem diz sim a qualquer sorte. É quando ele vem contar que pensava em mim quando viu chegando a morte. Que pensava em mim quando a morte lhe deu as costas e lhe deixou voltar para casa. E que agora sabia que tudo era pra sempre. Na madrugada acalmo os cabelos em tempestade de Baby Zen, beijo as dores intermitentes dos seus olhos e lhe afago as mágoas nuas no peito. Não posso lhe dizer que não sei o que é para sempre. Talvez seja aquele instante em que ele esquece as feridas e salta sobre minhas costas nuas com suas garras de tigre, com sua sede de náufrago. Fecho os olhos para sentir a dança de Baby Zen, que jamais saberá que o pra sempre sempre acaba.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Perto do fim do mundo

Eu pensei que o mundo iria acabar no dia 21 de dezembro de 2012, e parece que não vai. Já havia começado a viver momentos com gosto de despedida, a olhar para a paisagem com a expressão melancólica de quem tem a certeza da viagem, do nunca mais, com cara de quem pode dizer com firmeza: tô vasando. Mas era potoca! Não pude evitar que duas volumosas lágrimas vertessem de meus olhos desolados quando o Fantástico desmascarou a profecia. Foi uma estrondosa desilusão.
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Se o mundo acabasse de uma hora para outra, com o choque de um planeta, asteróide, cometa, ou seja lá o que for, com a Terra, seria menos sofrível do que a morte lenta que a gente sofre todos os dias, a morte da esperança numa humanidade mais justa e mais pacífica, já que a paz é produto-consequência-resultado da justiça.
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Semana passada, por exemplo, eu morri um bocado. Morri quando soube que uma menina de nove anos, abusada sexualmente pelo padrasto desde os seis, está grávida de gêmeos. Morri quando um menino de 16 anos, do Quilombo do Curiaú, morreu eletrocutado quando nadava no lago e se encostou no suporte de um poste de energia elétrica enterrado sob a água por uma empresa contratada pelo governo do Amapá! E morri por uma série de outras coisas não menos terríveis, difíceis de enumerar.
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Eu sei que vou continuar morrendo assim todos os dias, porque crianças continuarão a ser violentadas, atiradas pela janela, eletrocutadas em gambiarras elétricas de gente sem responsabilidade, e a maior parte da humanidade vai continuar assistindo a tudo isso nos telejornais, com cara de não tenho nada a ver com isso. Inclusive eu, que me permito ser governada por essa gente que está aí preocupada em mostrar na televisão o Governo em Ação inaugurando pracinha, eu, que nunca mais fui para o meio da rua, com minhas bandeiras, gritar que o povo brasileiro precisa de arroz, feijão, farinha, carne seca e trabalho, e que o prefeito, o governador e o presidente da república se virem pra arranjar!, que faz um tempão que não pratico solidariedade.
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Enfim, o fim seria a grande chance de recomeçar, do nada, da explosão, do verbo, um mundo novinho em folha. Ah, outra profecia diz que o mundo vai acabar numa quinta-feira! Hoje é quarta...

domingo, 1 de março de 2009

Entre cinzas

Foi na quarta-feira de cinzas que reencontrei minha velha caixinha de recordações. Daquelas que a gente constrói em casa, usando papelão de outras caixas, papel de presente e até uns pedaços de renda para compor um certo ar de romantismo, naquele tempo em que se começa a supeitar de que a caixa da memória não será suficientemente boa para guardar tanta lembrança. E então a quarta-feira de cinzas foi tão longa que alcançou o domingo. A caixinha, descorada e torta, incorporou o longo tempo de minha ausência, e o tempo alongou a emoção do reencontro.
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Pois neste domingo de cinzas eu continuo com a caixa aberta e faço a mim a contundente promessa de nunca mais fechá-la. Nunca mais ficarei longe da fotografia da menina de poncho verde e botinhas de camurça, cujas mãos na cintura dizem tanto quanto o olhar confiante de quem acredita que será capaz de conquistar todos os amores.
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Quero reler todos os dias as cartas escritas em folhas de caderno, principalmente aquela que no post-scriptum diz Meu bem, tu és todo o mal da minha vida, trazida pelo carteiro ao portão dos 18 anos. Quero falar alto os poemas inacabados, rabiscados nas capas dos livros, e com eles voltar a sonhar, como o poeta que se esquece enfim que vai morrer e se distrai a construir castelos. A cada dia vou rever as pétalas da flor herdada de não sei quem, que secaram para sempre na página 88, entre o final da crônica Sobre o Amor e o início da Sobre o Inferno, de um livro de Rubem Braga.
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Vou carregar no bolso velhos papéis com a receita para chamar a chuva, com a descrição juvenil de um amanhecer que se perdeu no tempo da maneira mais distraída, e a pequena pedra onde a ferro e fogo meu primeiro amor escreveu meu nome. Para nunca mais esquecer quem fui, quem sou.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A volta do enigma

Reli recentemente o clássico Dom Casmurro, para ajudar minha filha em um trabalho da escola, e voltei a pensar – com aquela estranha ansiedade que dá vontade de mastigar o cotovelo – sobre o enigma de Capitu. Vejam só, com tanta novela boa passando na televisão, eu pensando em Capitu. Todo mundo, até quem não lê, já pensou um dia em Capitu. O Saramago por aí, escrevendo coisas incríveis, seus livros virando filmes, a Malu Magalhães revolucionando a música aos 16 anos, namorando um Hermano, e eu aqui, escrevendo a quarta frase terminada com o nome de Capitu.
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Onde quer que esteja, não tenho dúvidas de que Machado de Assis é uma alma perseguida, porque fez o favor de criar um enigma que persegue indefesos leitores pela vida afora. E continuará sendo, pela eternidade, enquanto Dom Casmurro não alimentar uma boa fogueira. Tá... é só um desabafo. O romance é tão bom que qualquer adjetivo da língua portuguesa pode lhe diminuir a significância. Arrisco dizer que quem não leu Dom Casmurro não viveu... mas vai morrer mais feliz. Ou menos infeliz.
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Pensar sobre o enigma de Capitu é um sofrimento parecido a uma fome que não se pode matar, a procura de uma palavra que foge quando a gente mais precisa escrevê-la, ao incômodo de um cotovelo mastigado. O que me perturba em Capitu não é a possibilidade de ter traído, mas a de ter traído e não ter contado. Mas se não fosse isso não haveria enigma, e Dom Casmurro não seria. Enfim. Com Dom ou sem Dom, infidelidade é perdoável. Deslealdade, sabe Deus, Capitu.
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Portanto, visitante, leitor esporádico ou assíduo... ajude-me a me livrar dessa embaraçosa perseguição do Machado e me responda: Como se chama aquela tartaruga de óculos das historinhas do Maurício de Sousa? Era o Mestre dos Magos o bandido da Caverna do Dragão? Usucapião é uma palavra masculina ou feminina?

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Rehael

Começou a aparecer nos nossos sonhos, e disse-nos se chamar Rehael. Aparecia em forma de andarilho, de artista, de velho sábio, e quase sempre acordávamos tristes da viagem, sem poder saber se um dia o veríamos real. Enquanto era andarilho, levava-nos para os mais recônditos povoados dos sonhos, e nos dizia maravilhas de se ter a solidão de uma estrada sem fim como companhia. Como artista, era único. O melhor palhaço, o melhor Lisandro. E dos mais insólitos tablados que podiam se sustentar tanto em copas de árvores quanto em águas correntes, arrancava-nos aplausos que beiravam as lágrimas. Em todos os sonhos, de todas as madrugadas, em qualquer forma, tinha o dom da potência. No sonho em que nos apareceu como menino, abraçamo-nos ao seu corpo, e com o mais desamparado dos olhares lhe perguntamos por que nos deixava à sorte dos que têm saudades. Desvencilhou-se enigmático, e no sonho seguinte apareceu-nos na forma que nos disse ser a original, do anjo Rehael, da segunda hierarquia dos anjos. Depois de recitar um salmo inédito, prometeu-nos que nunca mais precisaríamos ter saudades. E nos aprisionou no sonho para sempre.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Previsões do tempo


O mar rumoreja inquieto, cantando à areia canções de náufragos, enquanto a estação se finda na lonjura transoceânica dos olhos do poeta que partiu. Hoje não fui às dunas nem esperei por aquela mensagem que parece viajar em um triste e desamparado navio de cargas que jamais chega ao seu destino. Debrucei-me à janela apenas, e até o sol se pôr sonhei com o poeta vindo pela areia branca do dia chumbo, procurando a liberdade de meu exílio e arrastando no braço nu sua poesia vestida de roxo-sangue. Vinha descalço e com os cabelos fluindo em ondas amendoadas pelo sol. Nada mais belo. Nem mesmo o próprio mar, que fluía em ondas de toda cor. O poeta deixava sem culpas seu navio atracado no caos e trazia o verão inteiro preso ao sorriso. No bolso um diapasão para as notas das marés, no peito a tatuagem de uma erva rara do Caribe. E como fosse tão cinza o dia, tinha aberta ao vento a blusa amarela feita com os três metros de poente dos desejos de um poeta da Rússia, que pensava em costurar calças pretas com o veludo da garganta. O meu navio atracava no mesmo caos, meu sorriso eternizado em outonos, meu diapasão do silêncio sob o travesseiro, e o vestido salpicado das ondas de ontem, disfarçadas em chuva. Mas da janela para o mar agora vejo o poeta passar ao largo, prosseguir desenhando pés assimétricos pela areia úmida, tornando ao seu país aquático pelo caminho inverso. Em suas veias pulsam as velas do barco que singra e sangra seu oceano de plumas. Presa ao cais deixa a poesia, e no doce aceno de adeus tem o desejo do ferro devorando a ferrugem, do sim devorando o não.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Manhã

Acaba de amanhecer no mar. Foram-se embora da praia os visitantes noturnos, deixando a pequena fogueira com as brasas ainda acesas. Deixaram também seus papéis, suas cifras, que estão sendo levados pelo vento para outras paisagens, e levaram o violão, que atravessou insone as cantorias da madrugada. Ficou alguém deitado na areia, junto à fogueira, abraçado aos sapatos. Se o mar se esticasse mais um pouquinho lhe alcançaria os pés nus. Quando despertar, depois que este primeiro sol termine de lhe farejar o corpo imóvel como o de um morto, cujo único movimento é o dos cabelos e o da manga da camisa que freme como uma folha, andará errante e perdido de fome e abandono pela praia que não sabe ao menos onde é. Atravessará o tempo e os avisos de perigo pensando na moça de cabelos negros que na noite na praia lhe disse o último não. E esquecido de todas as teorias do acaso e do esquecimento, atravessará a tarde a escrever pequenos poemas na areia, que o mar depois apagará. Até que chegue outra noite, e ele possa enfim, ainda abraçado aos sapatos, sentir que o tempo liberta seu coração para voltar pra casa.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Ana e o mar

De tarde vejo Ana vestida de azul sobre uma rocha, procurando no horizonte o fim do mar. Sabe que de lá virá seu homem que foi para voltar. Como prometeu, ele trará uma esmeralda tão verde quanto os olhos de Ana, e ela espera há tantos sóis, que talvez se tenha perdido nas contas dos navios que viu chegar sem trazer o marujo sujo, de retorno à pátria e ao seu abraço. Um dia ele chegará com a pele curtida do calor de outras pátrias, com os cabelos compridos e amendoados pelo sol, e terá nas mãos o gosto amargo dos adeuses inumeráveis em outros cais. Nos olhos a luz serena das tardes de Fiji. Ana acolherá seu marinheiro, sem perceber que aquelas mãos que pousam como asas em seus cabelos têm ainda a areia das praias onde ele viveu estrangeiros amores, que sua pele tem o sal ainda fresco do suor de outras peles, e que seu coração não tem mais porto. E o marinheiro, acostumado à luz pálida da solidão dos olhos de tantos marujos do percurso, não perceberá que os olhos de Ana continuarão estendidos ao mar, à espera do homem que virá.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Ano do Boi

Chegamos ao ano do boi no horóscopo chinês, o signo da prosperidade e do trabalho duro. Não sei exatamente o que isto representa, se vou ter que continuar trabalhando duro em busca da prosperidade ou se isto está reservado apenas aos que nasceram sob o signo do boi. Eu sou cavalo... será que pra mim o ano vai ser moleza? Seria uma grande novidade. Acho que nunca consegui nada na vida sem ter que brigar muito e carregar muita estiva. Mas quase sempre consegui. Prefiro pensar que o que não consegui foi porque Deus pensou em outra coisa pra mim e não gosta de ser contrariado. Seja o que for, tenho um pacto comigo: neste ano, abaixo a rotina e as convenções!

Bem-vindos os que têm vindo. Não estou preparando nenhuma canção em que alguém se reconheça nem que fale como dois olhos, mas caminho por ruas que passam em muitos países, se não me vêem, eu vejo, e saúdo os animais que morgam nas tardes das calçadas. Graças à floresta, há chuvas temporais previsíveis pra inspirar uns escritos. Espero por eles.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Au revoir!

Sem pressa de voltar, vou indo a um lugar onde não há um só tempo. Onde o tempo é simplesmente o tempo que você quiser que seja. Eu vou indo e quero que ele seja infância. Minha infância tem chuva nas cercas de tábuas, nas ruas de terra vermelha que entram pela floresta cujas árvores tocam nuvens, tem chá de ervas na tarde da varanda de papoulas e colibris, cheiro de maracujá, pitanga, araçá e grama molhada. Tem estrelas em noites inumeráveis, janelas abertas por onde entram a saudade e a lua. Esse tempo é o meu presente. A vocês, como presente, eu deixo O Amor:
.
Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela,
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará o exame
de mil nadas
que dilaceravam o coração.
Então, de todo amor não terminado
seremos pagos
em inumeráveis noites de estrelas.
Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo quotidiano!
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que, ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra.
.
Maiacóvski

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Sofia


Último da série PANDORA
Ilustrado com tela de Modigliani


Sofia colheu a paixão na caixa de Pandora...


Na meia-noite eu penso em Baby Zen, eu olho as estrelas da constelação colada no escuro do quarto e elas se parecem com os seus dentes branquinhos que cintilam quando ele pergunta pela milésima vez se eu sei que ele leu Quando Nietzsche Chorou. Sim, Baby Zen, eu sei, eu sei também da encarnação em que você foi rei, digo a ele. Ele fingindo tristeza de menino diz que não pode mais comigo porque de tudo eu sei. Na meia-noite eu fecho os olhos cegos de ver a dança de Baby Zen, e na escuridão ele está rodopiando na madrugada sem grilos do gramado do parque, junto aos cachorros que confabulam a fuga no próximo navio. Baby Zen pede aos bichos que olhem pra mim, e que cantem com ele Sunshine Girl, sua invenção no violão imaginário que arrasta pela madrugada povoada de lua. Toda minha alma está no parque, dançando com Baby Zen a canção que diz que Sunshine nunca ficará só. Mas ele tão pouco sabe de solidão, do medo que tenho de um dia demorar em seu esquecimento, e perde a conta dos dias que some por outras constelações. Quer ser meu Miguel Littín, clandestino em meu corpo, o louco de minha primavera, meu Karenin... perdeu também a conta de quantas almas quer ter e mal compreende que eu quero apenas que seja meu homem. Por isso não posso ignorar Baby Zen na meia-noite em que ele volta chamando em minha janela com apelo de abandonado, quando salta para dentro com garras de tigre, e me sufoca a boca com sede de náufrago. Traz uma flor na mão aberta, a alquimia e o entrepossível. Se Nietzsche teve razões pra chorar, o que será de Sunshine Girl?

domingo, 16 de novembro de 2008

Nina


Série: Pandora


Nina colheu a loucura da caixa de Pandora...


Eu vejo o tempo sentado à minha porta, esperando que eu passe. Não me olha, não levanta a mão num de seus gestos de sábio, nem nunca ameaçou lançar-se sobre mim como a pantera da ingratidão para me devorar a doçura, minha única herança. Mas também não me parece ter complacência, e um dia, quando eu estiver bem perto, apenas me apontará um dedo sereno anunciando o fim já esperado. Enquanto ele me espera, escrevo-lhe a carta de despedida, sugiro-lhe urgente resposta porque não posso mais vê-lo ali na sua imobilidade de guardador das coisas que ele não ama. Porque o tempo simplesmente não ama ninguém. Quero saber dele quanto dura o nunca mais, quantos sóis dura um amor, em que parte da viagem ficou perdida a esperança, ficou perdido o meu nome, o desejo de ser uma mulher azul com asas de anjo, que tivesse um coração de pássaro, que respirasse saudades e cantasse ternas reticências... Ele não vai responder. Nem por isso vou odiá-lo. Vou fazer coisa pior: vou passar bem devagar e deixá-lo ao castigo da espera.

domingo, 9 de novembro de 2008

Hilda

Hilda colheu o trabalho da caixa de Pandora...


Tenho uma necessidade estranha de dizer milhares de palavras todos os dias. Muitas mais que as sete mil da média das mulheres. Não posso suportar meu próprio silêncio. Por isso fui trabalhar no rádio. Tenho de manhã um programa de leitura de cartas de amor, de ódio e de problemas sexuais, um de música de tarde e outro de esculhambação de noite, que é o que eu mais gosto, porque dá pra falar o que quiser. Não tem censura nem hora pra acabar. Eu aproveito pra dizer que o Che Guevara era só um terrorista, que queimar um incenso é a mesma coisa que fumar três cigarros, que o ponto g é mais pra fora do que se pensa, que a chuva de meteoros do céu da Bulgária é ficção, que o livro A Boa Terra ensina como se fumar ópio, que o Elvis está pra morrer pela terceira vez... E também faço umas perguntas para os ouvintes, tipo: eram os deuses astronautas? Eles respondem as coisas mais loucas, que eu leio no ar. Hoje vou encerrar o programa da noite com a pergunta para um ouvinte que adora Tracy Chapman, que me ouve a noite inteira e só falta andar de dia com o radinho de pilha no ombro: Baby, can I hold you tonight?


quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Marie

Série: PANDORA

Ilustrações: telas de Modigliani

Marie colheu a doença da caixa de Pandora...



Ferdinand voltou a freqüentar minha casa, como nos velhos tempos, seu espectro solitário no quarto dos livros, o lugar escolhido, antes e depois da morte. Na primeira vez em que o vi, muito depois de sua partida, espantou-se de que o tratasse como se o tivesse visto há pouco. “E os fantasmas contam o tempo?”, perguntei-lhe, e ele me respondeu que sim, que o tempo é muitas vezes mais longo se a morte é triste. “Escolhesse uma morte melhor”, desafiei-o, e ele sussurrou que sua morte era triste porque havia escolhido morrer. Sempre que chego, encontro-o no quarto dos livros e conversamos sobre as coisas que temos visto. Eu lhe conto dos poemas de amor que escrevo, como um grito de rebelião contra o nada, dos sonhos em que os ocasos se fazem a qualquer momento, com a mágica simples do sopro de uma palavra doce. Ele me conta de quantos têm chegado por lá por vontade própria, tangendo esses mesmos sonhos. “Ferdinand, você está muito mais velho do que quando se foi”, disse-lhe um dia. “Na morte também se envelhece, Marie, e depois vem outra morte”. Eu acho graça de seu apego. Matou-se porque quis. Embaraçou-me em solidão e também ficou sozinho. Ferdinand diz que logo vou morrer também, do mesmo mal: a crença demasiada na vida. Eu não sabia, mas acredito no que ele diz.